Do ofício da mineração e da prospecção geofísica dos corpos espectrais


Continuamos às voltas na mina. O edifício central do poço atrai com uma força inusitada, pólo magnético ou abismo que suga as vontades como um buraco negro. Não se iludam com a cor, o vermelho das paredes não se deve ao Sol do fim do dia, mas ao sangue embebido no barro dos tijolos. Ao sangue dos que morreram na mina, nas galerias fundas no fim do poço, emaranhado de túneis onde o calor e a humidade cozem os homens no estômago da terra e os pequenos pássaros nas gaiolas são os primeiros a sucumbir. Aos que morreram perfurados pelas máquinas na luz cega dos subterrâneos. Aos que foram vítimas de desmoronamentos, esmagados pela riqueza do minério ou pelo sufoco de veneno do pó. Ou ainda, àqueles que não envelheceram, tolhidos pela fraqueza dos pulmões que os atraiçoaram demasiado cedo…

Daqui em diante só há fantasmas


Ainda nas minas do Lousal. Deixando a aldeia para trás encontramos as instalações do complexo mineiro. A central eléctrica, os escritórios, a entrada da mina, o poço, pilhas de escória e minério... Há cheiros que persistem: enxofre, cobre, terra, ferrugem… Há instalações recuperadas para um museu, uma parte já foi mesmo aberta ao público. Mas são as instalações abandonadas que mais atraem, o fascínio dos espaços abandonados, onde ecoa ainda o barulho dos ferros e das máquinas e o praguejar dos homens, agora habitados apenas por pássaros e fantasmas.
 
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Isto aqui era assim de gente!


Aldeia das minas do Lousal. A mina está abandonada, depois do encerramento em 1988. As pessoas foram partindo, ficaram os mais velhos. Retrato de um país a preto e branco. Podia ser em qualquer outro lugar do interior: norte, sul, centro, tanto faz. As aldeias ficam desertas, povoadas de fantasmas, memórias a desmoronarem-se como as casas que vão caindo, sossobrando ao abandono.

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O Ciclista

O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

                                                                                             A Bicicleta – Alexandre O’Neill
 (E agora, senão se importam, dêem-me música.)

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O ofício da luz

 

Não me lembro de todos os professores que tive, talvez nem de metade. Contudo, lembro-me bem do meu primeiro professor da escola primária, o professor Madeira. E dos outros dois, a professora Banha Oliveira – da 2.ª e 3.ª classe, que organizou um coro e nos ensinou a cantar – e do professor Carapito que nos conduziu ao temível exame da 4.ª classe (apercebo-me agora que nunca soube os seus nomes próprios). Lembro-me de muitos outros ao longo dos anos, principalmente dos melhores, daqueles que mais me marcaram. E lembro-me com gratidão.
E é por isso que me custa perceber porque é que os professores são tão mal tratados neste país e a escola tem vindo a ser palco - há cerca de quarenta anos, desde o Veiga Simão - das mais mirabolantes experiências dignas de qualquer cientista louco. Reformas e contra reformas a um ritmo de montanha russa, o que era válido ontem está hoje obsoleto, mas já terá validade amanhã…. E depois, há outra coisa que não entendo: porque é que têm, quase sempre, os piores ministros? E pior, o que foi que fizeram para terem como castigo esta ministra, com a sua clownesca parelha de secretários de estado? Nunca se viu gente tão autista, arrogante e incompetente a fingir que sabe o que está a fazer (e bem temos tido a nossa conta dessa gente, alguns agora até estão em tribunal).
Bom, deixa-me cá tentar lembrar do nome de mais alguns: o padre Águeda, fantástico professor de Francês e Música; a professora de Português no complementar, ai, como é que se chama? a professora Vitória Comenda, de História; o professor Magalhães Godinho; o... sou mesmo mau para nomes… a Rosa Perez… a Manuela Fazenda…

[E clikes para aqui? Os quatro primeiros são meus, os outros, são para quem for mais rápido (e aposto que alguém vai escolher um que eu cá sei).]
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Ode Marítima V. A nave de pedra.

 
(E pronto, este é, por enquanto, o último navio que já apetece mudar de tema. Ficam cinco cliks para as vossas sugestões, se ainda estiverem com disposição para tanto mar.)

Ode Marítima IV. Clarisse e a Lua.


Na lua nova, os peixes vestem roupas de cerimónia e entregam-se a estranhos rituais em que dançam toda a noite e os barcos, ficam na areia para não incomodar.

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Ode Marítima III. Luna del Mar

Mais uma deste navio, a última, a completar a rosa-dos-ventos. Pontos cardeais a que já não ruma que se lhe secaram os azimutes. As memórias guardam-nas gaivotas, albatrozes e peixes. E os caranguejos, que se passeiam pelo casco agarrados aos degraus de lapas, são os confidentes das suas últimas histórias. Parte do seu corpo irá terminar no inferno de fogo de uma siderurgia no estrangeiro (que cá já não as há) onde será fundido – o cobre ao cobre, o aço ao aço. Serão feitas novas chapas, e vigas, e peças. Talvez volte a navegar. Quem sabe da reencarnação dos navios…

(Gostei muito desta experiência dos clikes, creio que, de certa maneira, fizemos história. O blogue ficou assim mais partilhado, mais interactivo com a vossa activa colaboração. Por isso, acho que é de continuar, venham daí as vossas sugestões* para os clikes ceguinhos.)
* Não prometo é pôr tudo, é que há coisas com que embirro mesmo a sério. Esquisitices.
Clikda Ana Barata/Cristina    clikMicha  clik3    clik4    clikRose    clikCristina    2ºclikMicha    2ºclikAna Barata

Ode Marítima II. The Ship Song

Não vos disse antes que estas fotos são de um estaleiro-ferro-velho. Nem que este navio aguarda, na sua última morada, pelo bisturi dos operários. Que espera, com a dignidade que se pode ver, pela… ia dizer autópsia, mas é mais do que isso... É que este lugar não é um cemitério, nem o espera um eterno repouso. Agora vai ser esventrado, estripado, decepado, decapitado. Desfigurado. Vai ser esvaziado de todo o seu interior: motor, cabines, beliches, guinchos, cabos, memórias. Cada órgão vai ser separado e catalogado, arrumado por categorias de materiais: cobre para um lado, chumbo para outro, madeiras, vidros, aço, o bronze do hélice… (assim como a carcaça do porco, nada se perde, tudo se aproveita) até só restar o casco. Finalmente, este é cortado às postas pelo lume vivo dos maçaricos, pedaços de pele que já não protege nem aquece, até que do navio nada resta. A não ser, talvez, estas fotografias.

(Começo, quase, a ter falta de clikes para este tema. Gostei das indicações anteriores, uma boa ideia. Vou pô-las agora e deixar alguns clikes cegos para mais sugestões. Não me querem dar uma ajudinha?)  
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Ode Marítima


Isto de viver entre o Tejo e o Atlântico tem as suas coisas. Ao percorrer os meus arquivos, digitais, apercebo-me da enorme quantidade de fotografias à beira de água. De praias, areia e ondas, com banhistas e sem banhistas, de falésias e rochedos, de portos e cais, de redes e pescadores, com barcos e sem barcos. Reparo que tenho mais barcos do que navios, mais velhos do que novos, mais embarcações tradicionais do que modernas. Mais ruína do que esplendor. Curioso!
Por isso, decidi que tinha de mostrar aqui alguns, talvez até dar início a uma série (veremos). Em todo o caso já tem nome. É que, “não se nasce impunemente nas praias de Portugal”. O pior são os cliks, é cada vez mais difícil encontrar aquilo que quero.


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Filigrana


A filigrana é um trabalho ornamental feito de vasos capilares e pequeninas bolas de metal, entretecidos e fundidos na pele de forma a compor um desenho em que predomina uma sensação etérea de volume. O metal usado é geralmente o ouro ou a prata e empregam-se, como utensílios de trabalho, alicates para moldar os vasos, tesouras para cortá-los, martelos para os ajustar até que, finalmente, são unidos com um maçarico.
 
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Bouquet

No mundo perfeito e floral dos vegetais, feito de húmus e de água, de raízes e corolas, existem espécies particularmente estranhas: as plantas carnívoras. São plantas que capturam presas vivas, pequenos animais que matam e que depois devoram. É um comportamento muito pouco vegetal. A ideia de flores caçadoras é, no mínimo, inquietante. Felizmente, sabemos que são poucas e pequenas. Mas há outras, das quais nada sabemos, não há tratado ou manual que as explique, não conhecemos nem a morfologia nem a categoria. Sabe-se que vivem na pele. Não se conhece a extensão das suas raízes mas há quem diga que se alimentam de sangue. O seu número tem vindo a crescer e podem-se encontrar um pouco por toda a parte, principalmente no Verão.
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Debutantes

 

Ainda me lembro da minha primeira vez. Lembro-me de como estava nervoso, das mãos pastosas e do corpo a estremecer como se fizesse muito frio. Lembro-me da respiração pesada, quase dolorosa, o sangue a latejar nas têmporas como num solo de bateria. Ainda sinto na boca o sal do suor que me escorria pelo rosto e me queimava os olhos. De não conseguir ver bem e de como isso me fez ficar ainda mais nervoso, de quase entrar em pânico com medo de falhar. E isso nunca, isso seria intolerável. Afinal tinha treinado tanto, e conhecia-a tão bem. Foi para isso que me preparei a vida inteira, que sacrifiquei todas as horas, que ensaiei quase até à beira da loucura. Lembro-me de ter revisto tudo na minha mente, cada passo a dar, cada etapa cumprida e cada gesto preciso à espera do seu momento.

Lembro-me então de como me concentrei apenas nela e de como isso me acalmou. De me ter focado totalmente em cada um dos seus gestos, de sentir como meus os seus mais imperceptíveis movimentos. Do controlo total do meu corpo, paciente e atento, à espera do momento certo e da certeza de que este viria. Lembro-me perfeitamente – como numa repetição em câmara lenta – de inspirar fundo, de reter o ar nos pulmões e tudo parar à minha volta. Depois, de apertar suave e firmemente o aço do gatilho enquanto apontava ao coração. Foi a minha primeira vítima.

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Paisagens envenenadas 2. Derme



Para quem vive longe, e só para esses, fica aqui uma das fotografias que podem ser vista nas Digressões. São pirites, submetidas a vários processos de trituração, até se tornarem numa amálgama de terra colorida, depois de um dia de chuva. Uma enorme montanha de terra com cores que vão do vermelho ao roxo, do rosa velho ao vinho tinto. Minério à espera de entrar num forno, há muito apagado.
 
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Paisagens envenenadas


Como podem ver, serve o presente para vos convidar para mais uma exposição. Trata-se da mostra anual dos sócios da F4. Haverá escultura, pintura, caricatura e, principalmente, fotografia. À minha contribuição chamei "Paisagens envenenadas", são imagens dos solos, captadas em instalações industriais ou mineiras desactivadas.
Sejam bem vindos.