how deep is your love?

(é outra vez isto da luz, eu sei, mas o que é que querem, não lhe consigo resistir, até parei num túnel e tudo...)

O poente fica lá atrás.

(Alentejo, 14 de junho. 19:49.)
Qualquer dia vou aprender sobre esta coisa da luz. Tentar perceber. Porque é que aqui o céu é branco no ocaso, se por acaso ainda estava azul e brilhante, assim todo em prata dourada como um colar de pechisbeque no pescoço de uma loira platinada? (Chiça que até rima) Mas difícil mesmo é a fronteira da luz. O equilíbrio no arame que a qualquer momento se estatela lá em baixo. Um deve e haver de luminosidades e aberturas e temperatura da luz, como se um descuido a tornasse febril. E o céu a arder sem se ralar nada com isso. Mas pronto, um dia ainda vou tentar saber - até porque gostava mesmo de descobrir como é que aquilo da luz desfaz os vampiros 

mais valia que fosse noite


é hoje. vai ser hoje. finalmente. foram horas. dias. frente ao computador. dentro da noite. os olhos a arder. uma dor nas costas. é hoje. nem acredito. vou estar com ele. cortei o cabelo. o coração martela-me os ouvidos. dança-me no peito como se quisesse fugir. espero que seja igual à fotografia. que não me engane. não aguento ser enganada outra vez. morro. nem dormi nada esta noite. vai correr bem. vai tudo correr bem. ele vai chegar mesmo. e vai reconhecer-me. e sorrir. vai ter uma flor na mão. tem que ter uma flor na mão. disse-lhe tantas vezes como gosto de flores. e vai olhar-me assim de frente. nos olhos. e vamos falar tanto. espero que tenha uma voz doce. gosto tanto das vozes dos homens. doces. um pouco roucas. fui à depilação. espero que não fume. nunca me disse que fumava. quero-lhe sentir o hálito. o cheiro do corpo. os homens cheiram tão bem. e as mãos. macias. e vai dar-me a mão e beber os olhos. ou não. e se é tímido? tem de me dar a mão. se não dou-lha eu. prendo-a na minha. ou se calhar é melhor não. logo não. não quero que pense mal de mim. e se não gostar de mim? e se eu não lhe agradar? mas ele é que se quis encontrar. que combinou tudo. eu não me atrevi. tem de gostar de mim. levo o vestido novo ou as calças? e as sandálias? será que está frio? vamos conversar tanto. tenho tanto para lhe dizer. as cabeças juntas. cada vez mais juntas. e vai beijar-me. ou não. espero que não seja casado. que não me engane. que não me enganem outra vez. morro. só quero que seja ele. o mesmo com quem falei tantas horas. a contar tudo. a minha vida toda. nem quero pensar nisso para não ter vergonha. os dedos no teclado com vida própria. dentro da noite. a dormir no comboio a caminho do trabalho. um dia até passei a estação. e depois ele vai trazer-me a casa. vou deixá-lo subir. não vou deixá-lo subir. e se não gostar de mim? e se eu não lhe agradar? acho que vou comprar lingerie nova.

Vinte tangos desesperados e uma canção de amor (A mulher que perdeu a cabeça. 3ª parte)


Foi em Mendonza que conheceu o Polaco.
Continuava a acompanhar o cantor e sua orquestra em digressão pelo sul da América do Sul: Argentina, Chile, Uruguai e de novo Argentina. Cantava no coro com uma rapariga de Marco de Canavezes que detestava samba. Mas sobretudo mostrava as pernas. Por vezes, um bocadinho mais.
À medida que percorria as pequenas cidades austrais, foi desenvolvendo um interesse especial por baratas (mais tarde haveria de publicar a mais completa obra sobre elas). O cantor, que afinal tinha nascido na Fuzeta, continuava a fazer-lhe a corte, a ela e a quase todas as mulheres que encontrava. O encontro entre a sua garganta e uma bala de calibre.22 pôs-lhe fim à carreira em Ushuaia, nunca se soube se disparada por um marido ou uma mulher despeitada.
O Polaco era diferente, desajeitado como um urso e quase tão grande. Cabelo e barba com vontade própria, um tom antes do ruivo. As mãos surpreendentemente delicadas, o sorriso, afinal, tímido. Mas foram os olhos que a atraíram, alucinados e inteligentes, um olhar sonhador, ou colérico, mas nunca superior. Reparou neles enquanto dançava – um palco de tábuas que rangiam artrites a cada passo – buracos negros que absorviam toda a luz à sua volta.
Estremeceu.

J

(podem ver as letras todas na exposição Digressões 2011)

ingenuidade


    (ou se quiserem chamem-lhe: O amigo americano)

Digressões 2011


Serve o presente para vos fazer mais um convitezinho.
Pelo que parece, Portugal é lixo. Pronto.
Então e agora?
Vamos carpir mágoas ou vamos todos no próximo Sábado, dia 9, à inauguração das DIGRESSÕES 2011?

É que tristezas não apagam as dívidas e, por via das dúvidas, apareçam por volta das 18h na Oficina da Cultura - Av. Nuno Alvares Pereira 14M em Almada. Não custa nada, a entrada é à borla e, como brinde, podem ver o meu "Abecedário Ilustrado" finalmente completo, entre outras coisas, dos ilustríssimos sócios da Associação F4.
Venham depressa antes que as agências de rating classifiquem a coisa e, depois lá vou ter de vos cobrar metade do subsídio de férias.
Então já sabem, no regresso da praia, ou mesmo sem praia que está muito vento: Almada, Sábado, Oficina da Cultura, 6 horas da tarde. É fácil.

Sejam bem vindos.

Beijos e/ou abraços.

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esta coisa da luz


Há que tempos que aqui não escrevo mas, sabem, a coisa não é nada fácil. As palavras têm aquela mania orgulhosa de não se deixarem agarrar. Descobri, há muito tempo já, que, como toda a gente sabe, nós não escolhemos as palavras, são as palavras que nos escolhem. Falo das palavras escritas mais do que das outras. Se bem que, também é verdade, demasiadas vezes dizemos aquilo que não queremos, como uma arma que se dispara sozinha…

Mas escrever é pior. Os dedos no teclado, ou a ponta do lápis, tecem palavras que tantas vezes nos fogem ou se imiscuem no texto sem serem convidadas, com aquela lata das visitas inconvenientes. Ou então amuam num beicinho de estrela de cinema caprichosa. Diz que gostam de ser seduzidas, mas depois fazem-se caras. Primas donas do seu nariz que, ora se negam ora se pavoneiam como coquettes de outros tempos.

E eu aqui a querer escrever umas coisitas para decorar a casa e ficar bem no figurino e elas a pavonearem-se por outras paragens, tão longe como silhuetas no contra-luz do pôr-do-sol “I'm a poor lonesome cowboy”…