o sítio das lágrimas



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      em mim há qualquer coisa que se arrasta
      em mim há qualquer coisa que me dói
      em mim há qualquer coisa que se afasta
      em mim há qualquer coisa que me rói

      em mim há qualquer coisa que é nefasta
      em mim há qualquer coisa que não sei
      em mim há qualquer coisa que se gasta
      em mim há qualquer coisa onde errei

      em mim há qualquer coisa que s’ausenta
      em mim há qualquer coisa que não está
      em mim há qualquer coisa turbulenta 
      em mim há qualquer coisa que não dá

      em mim há qualquer coisa que se quebra
      em mim há qualquer coisa que eu perdi
      em mim há qualquer coisa que não medra
      em mim há qualquer coisa que se ri

      em mim há qualquer coisa que há em mim
      em mim há qualquer coisa que não sei
      em mim há qualquer coisa de ruim
      em mim há qualquer coisa que eu matei


d e r i v a

e eu perdido pelos cantos da casa, à roda das paredes, às voltas, às voltas, a arritmia dos passos a hesitar na penumbra, a ajustar os olhos, os pés a roer cascalho, torrões de terra, o puzzle dos azulejos todo em lâminas a cortar a pele,
fantasmas, fantasmas
as mãos à frente erguidas em escudo, a tactear, a tactear, a afagar em braille o estuque e a caliça, a tropeçar no musgo das paredes, os dedos a prenderem-se nas raízes, a afundarem-se na argamassa amolecida, os ouvidos a suportarem o peso do corpo,
fantasmas, fantasmas
um cheiro a espargos cozidos, talvez urina, uma coisa acre, mofo, os muros a olharem-me, de certeza que os muros a olharem-me, unhas a arranhar a parede, arrepios a descerem o barómetro dos ossos,
fantasmas, fantasmas
nas paredes países perdidos, mapas-múndi a escorrerem humidade, fracturas expostas, nervos, rios sem princípio nem fim, labirintos, não encontro a saída, porta, janela, uma brecha a expirar correntes de ar,
fantasmas, fantasmas
uma coisa, uma espécie de medo, a alojar-se na garganta, não é medo do escuro, nunca tive medo do escuro, é das próprias paredes, da geografia das fendas a reinventarem novos caminhos cada vez que as olho, a pulsarem, os muros a olharem-me, de certeza que os muros a olharem-me,

fantasmas, fantasmas
fantasmas, fantasmas, gritou-me a velha naquela voz de velha que ela tinha, antes de eu entrar na casa, os olhos sem brilho nem cor, como a roupa que vestia, o dedo em gancho a apontar qualquer coisa que se calhar era um aviso, que ignorei,
fantasmas, fantasmas
já não sei há quanto tempo aqui estou, às voltas, às voltas, os pés em sangue a traçarem rastos de caracol no entulho do chão,  um metrómano de pedra a latejar nas paredes, dentro da cabeça, cada vez mais alto, cada vez mais dentro, uma respiração a gelar a nuca
fantasmas, fantasmas



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