Paragem deserta a preto e branco

Quando é que te esqueceste de ser livre? Quando é que nos transformámos nisto?Ainda me lembro daquela manhã fria, das mães temerosas na rua “o que é que se passa, vizinha, acha que é seguro deixar os miúdos irem à escola?”, das aulas agitadas da manhã e do ar assustado dos professores do colégio dos padres. E da hora do almoço, daquele almoço em que o meu pai me abraçou depois do comunicado que o locutor leu na televisão que acabou com um “viva Portugal”, e o meu pai disse viva e abraçou-me desajeitado e ainda hoje me aqueço nesse abraço. E dessa tarde em que substituímos as aulas pela companhia dos soldados que vigiavam as estradas com uns canhões enormes porque nem todos os quartéis tinham aderido e poderiam vir alguns tropas para Lisboa ajudar o governo.
Lembro-me depois do dia em que fomos para o largo do quartel receber os soldados que voltavam de Lisboa e de como toda a gente os queria abraçar e se gritavam vivas a Portugal, ao MFA e ao Spínola, de quem nunca tinha ouvido falar. Lembro-me desses tempos em que parecia que estávamos a reaprender o mundo e todos os dias pareciam feriados, de como íamos descobrindo o país na televisão, num programa em que os militares andavam por todo o lado a explicar essa coisa da revolução, das comissões de trabalhadores, das comissões de moradores, das cooperativas, dos sindicatos, das associações de estudantes e de consumidores… toda uma nova gramática a estrear.
Mais tarde, o largo gritava abaixo o Spínola e abaixo a reacção e apareceram os partidos, muitos partidos e houve eleições. Continuaram a haver eleições mas menos partidos e menos comissões e cooperativas. A pouco e pouco, as pessoas passaram a ter outros interesses, deixaram de pedir coisas para todos e passaram a pedir só para alguns. Muitos foram para os partidos e nunca mais se juntaram no largo. E há os que foram para o governo e ficaram ricos.
Agora, já nem pedimos. Queixamo-nos dos outros por terem o que não temos e preferimos que fiquem tão mal como nós a exigir ser como eles, acusamos colegas que troçam de ministros, batemos nos professores que tentam educar os nossos filhos, revoltamo-nos mais com o golo roubado que com o centro de saúde encerrado, tratamos os imigrantes com desprezo, impomos regras de decoro a funcionárias, processamos jornalistas, votamos em políticos corruptos. E elegemos o filho da puta do Salazar como o maior português!
 
Andamos tão ocupados a ser mesquinhos que nos esquecemos de ser livres.
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16 comentários:

Chapa disse...

Memórias maiores que o pensamento!

haideé disse...

Portugal, un país excepcional, con unas personas excepcionales que aún tiene que aprender a ver que lo son, así lo veo yo, pero ¿quién no necesita de reconocerse válido?
Hagamos una revolución desde nuestro propio interior, la más difícil pero la más importante... a día de hoy es la revolución que cambiará el mundo.
Y comparto contigo la última frase, ver sólo el árbol impide ver el bosque, pero a la vez, mirar el bosque impide ver la importancia del árbol. La libertad comienza por uno mismo.
Y como siempre, me has sorprendido con la imagen, insisto, los hados te son propicios, de lo cual yo siempre me alegro :) y mucho :) y máxime al reforzarla con el B&N.

Me alegró saber de tu contacto con mi tierra :)
Besos!

Chapa disse...

A emoção das memórias evocadas no texto, não me deixaram comentar a excelente fotografia.
Obrigado caçador por mais uma grande imagem.

XuanRata disse...

Las revoluciones no están hechas para durar. Como la fantástica imagen de hoy, tienen anverso y reverso, ida y vuelta. Hay que cambiar pronto de estación. Y no esperar a que pase el autobús.

ana barata disse...

Obrigada. Pela memória, pela revolta, registadas desta forma, por palavras, sons e imagem.
A festa, quem a estragou fomos nós todos, porque, como dizes, andamos demasiado ocupados a ser mesquinhos, a olhar para o nosso umbigo, que nem demos conta que já não somos livres.

L.Reis disse...

Bravo Caçador! Eu também me lembro dessa manhã em que já não cheguei à escola...parece tão longe...não tanto no tempo, mas mais nesse conceito de liberdade que parece de nada servir.
Um beijo pela memória.

Manana disse...

Parabéns pela foto e pelo texto. Agradeço a memória, pois a minha é muito mais vaga, recordo-me que estava na cama doente e que me iam dando notícias confusas...
beijos

Manana disse...

Ah, e parabéns pela premiação, o blog merece-o; tu merece-lo. Eu já votei...

CybeRider disse...

Olha Caçador, já sabia que tinhas boa memória. Mas não sabia que me ias fazer recordar a altura em que deixei de ouvir as canções como melodias, e acho que muitos há que ainda as ouvem. Mas avisaste a malta. Isso avisaste. E deixáste-me à procura desse mal afamado dia em que me esqueci de qualquer coisa importante. Pelo meu lado vou continuar à procura. Sinto-a, que "está a passar por aqui", por este post magnífico com que nos recordas desse Abril que nos luziu um dia.

Um grande abraço.

Ah! Já votei já. E por mim ganhas destacado.

Ángel Corrochano disse...

Yo por el contrario si creo en lo perdurable de las revoluciones, al menos su legado. Esta foto tiene el poso de lo transcendente.

Excelente composición de líneas y reflejos.
Y excelente blanco y negro

Saludos

William Alexander López disse...

Buen Blanco y Negro, lograste una perspectiva muy original !


Abrazos

Nortinha Vicente disse...

Apesar de nunca poder sentir o que sentiu, aqueles que viveram estes momentos! E não só! Os que os viveram de olhos abertos! Mas apesar de tudo, fico feliz por saber, que ainda alguém os sabe descrever de um modo, que me transporta até lá. A foto é fantástica, a mensagem única. Obrigado.

Clarice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Clarice disse...

"Quando é que te esqueceste de ser livre?"
Esta pergunta deveria acordar-nos todos os dias!Para tudo na nossa vida!

"...ainda hoje me aqueço nesse abraço."
E eu, ainda hoje me lembro dos olhos molhados do meu pai.... nesse dia em que não fui à escola.

Já tinha espreitado este lugar e hoje voltei rendida... posso voltar, não posso?

Extremenian disse...

Me gustaría compartirlo en FB... Creo que refleja extraordinariamente lo que los bancos pretenden en Portugal y en toda Europa, que no es otra cosa que volver al siglo XIX, y retroceder y darle la vuelta al espíritu del 25 de Abril. No podrán, pero harán mucho daño en el intento.
Todo mi cariño y respeto para los hermanos portugueses.

the dear Zé disse...

gracias Extremenian, es un honor

saludos