Litogravuras

Fui às sortes. Depois da recruta mandaram-me para aqui. Vejo passar os barcos lá ao longe, maiores do que a minha aldeia. Lá em baixo há praias, no verão enchem-se de gente e eu, aqui. Estas paredes são velhas, o quartel é um túnel sem tecto. Arranho as tuas iniciais no meu braço com o aparo de uma caneta de tinta permanente. Por que é que não me escreves? Ainda bem que a guerra acabou. Raspo o meu nome na parede, uma letra de cada vez. O sargento nunca vem aqui. À noite tenho medo. Quero-me ir embora. Raspo o meu nome com as unhas, arranho os dentes na parede. Quero sair daqui. Arranco um osso do peito, uma costela e espeto-a na parede. Quero fazê-la sangrar, mas só o meu sangue escorre, das unhas, das nozes dos dedos. Estou aqui à espera dos bárbaros, a vigiar o mar, o estuário do Tejo. Do outro lado, Lisboa. Não conheço Lisboa. A parede brilha com o meu sangue. O sargento nunca vem aqui. A G3 pesa-me no ombro. Se tivesse munições, nem sei o que faria. Acabei de gravar o nome, não sei se escreva também o número. O maldito número de soldado. Mijo na parede para lavar o sangue, mas a parede já o bebeu. O sol começa a nascer. Faltam-me três meses. Por que é que não me escreves?

clik1    clik2    clik3    clik4    clik5    clik6    clik7    clik8    clik9    clik10    clik11    clik12

18 comentários:

Manana disse...

Completamente paradoxal: uma parede velha, degradada, suja, feia...que te inspira para uma foto com garra que, por sua vez, se torna na musa dum magnifíco texto que poderia ser a epígrafe dum livro. Aliás, espero que já tenhas pensado em publicar um livro com ou sem fotos tuas, tens tempo, escreves bem, imaginação não te falta....
beijos

jugioli disse...

Uauhhhhhhh!!!!!!
o máximo........

ana barata disse...

Impressões digitais de pedaços de vidas. Gravadas, sofridas.
E, como sempre, sons a sugerirem outras imagens.
Beijo

Micha disse...

Another one, please! On the rocks as well! Luxuria poder terminar o dia sentada no balcao do photomelomanias.
Tks 4 that!

Ángel Corrochano disse...

Cuantas cosas nos cuentan esos muros hablados, arrancando el mensaje de las texturas de la pared, pintando con los desconchones ...
Una fotografía Genial

Saludos

jugioli disse...

Acordei hoje feliz, ganhei um lindo presente.

Obrigado pela gentileza, vou imprimir e escrever na tela. Adoro o tempo aqui retido nas escritas, os espaços que elas possuem, a força de alguns e a leveza de outros, ha uma certa cerimonia aqui, onde o respeito pelo espaço é mantido, não há tantas superposições como alguns grafites,
levando a me perguntar onde será esse local, e que bom não saber, ele nos remete a pré-historia, bem...não vou falar mais.

Novamente obrigado, fiquei muito honrada com o seu presente.

bjs.

Sérgio Aires disse...

Obrigado pela visita e pelo comentário. És muito bem-vindo! Até porque eu rapidamente me tornei um fã deste teu espaço. Ficamos em contacto, portanto.

Camarandante disse...

Hola Caçador!! muy buena la foto, muy fuerte y emotivo el relato, desangrado.

Abrazo!

pablo cholvis disse...

Esta imagen tien un ancanto especial. Me quedé enganchado leyendo todo. Muchos y en muchos momentos han participado sin saberlo para que tu toma obtenga tan buen resultado. Saludos.

pablo cholvis disse...

Esta imagen tien un ancanto especial. Me quedé enganchado leyendo todo. Muchos y en muchos momentos han participado sin saberlo para que tu toma obtenga tan buen resultado. Saludos.

Álex disse...

porra que andas inspirado! fixe, muito

Vendas Novas SOS disse...

O teu azar foi ires fazer a tropa à artilharia de costa,bem podias ter ficado aqui na epa,sempre ficavas na tua terra.A foto está porreira e a escrita é do tempo do prec.O teu texto também está muito bom e gostei do ler.A tua vila é que não passa da cepa torta,passa tu aqui pelo Vendas Novas SOS para veres como ela está.
Vou continuar a passar por aqui.

cuentosbrujos disse...

las letras forman un a textura singular
buen trabajo
saludos brujos

ercanito disse...

Puedes usar mi foto cuando quieras, si eso es lo que me has preguntado. Un saludo.

L.Reis disse...

UM texto muito sofrido, ilustrado por uma imagem onde a escrita é apenas uma cicatriz de tantas memórias.

haideé disse...

Yo también me estoy haciendo esa pregunta :)
Pero en mi caso, sin tanta desesperación...
Me encanta como miras y encuentras, ya lo sabes, pero ¿sabes qué? no me importa repetirtelo :)
Gracias!

CybeRider disse...

Não sei escrever assim... Bonito. Muito bonito.

Com esse texto não precisavas dos cliques. Ficaram-me sem sentido.

Um abraço!

Caçador disse...

Cybe, isto no fundo, é um blogue de cliques. Sem eles, ainda que quase ninguém os veja, não sobra muito...